
Ontem foi para mim um dia de emoções fortes. Tive de ir ao hospital, e o que para mim iria ser quase que uma consulta rotineira sem a mínima importância acabou por se demonstrar uma experiência marcante, que me deu alguma noção do mundo desconhecido.
Para começar estive quase uma meia hora na fila de espera onde conheci:
-O senhor A que já tinha uma certa idade, muito mal cuidado, com bengala, ferido na mão e que tinha dificuldade em estar de pé. É uma pessoa que se via que era só, pois apesar de estar sozinho tentava meter conversa com toda a gente o que lhe dava a sua graça.
-A senhora A que era novinha e que foi muito simpática e nos deu muitas indicações, que apesar de tudo, tinha um ar triste e abatido e que foi para a mesma unidade que eu para os curativos, por isso também já devia ter passado por umas tantas provas de fogo.
-A senhora B que tinha os seus 60 e tal anos, veio do médico e não queria, tal como as outras pessoas, estar na fila de espera. Fez lá uma valente algazarra e no fim de contas, acabou por conseguir meter-se a frente de umas tantas pessoas, o que a meu ver foi uma valente falta de respeito.
Bem...lá fui eu atendida na secretaria e fomos (eu e a minha mãe de coração que me acompanha sempre)para a unidade a que eu tinha a consulta, mais uma filinha para entregar a folha que me tinham dado na secretaria e depois o habitual tempo de espera até que a suposta médica se decidisse a chamar-me, e foi durante esse tempo que o mundo se revelou perante mim. Conversa para cima e para baixo e acabei por conhecer umas pessoas muito interessantes:
-Senhora C, com os seus 50 anos. Muito engraçada, tinha uma blusa com flores coloridas, cabelo curto, lábios "rouge". Dizia que eu tinha um sorriso muito bonito e conhecia um primo meu que trabalha no mesmo local que ela, tomava calmantes a 17 anos por causa de uma depressão que nem a deixava andar direito e que o médico insistia em dizer que era fígado, e que quando se tratou e lá voltou, o médico teve a lata de dizer que já suspeitava.Já tinha feito todo o tipo de exames, e segundo ela, estava tudo bem. A mãe morrera de cancro da mama a mais ou menos 6 anos e por isso ia agora também fazer mais um exame, como dizia ela, "ao peitinho" e que se Deus quisesse tudo ia estar bem...
-Senhora D, com os seus 30 e tal anos, uma pessoa tão serena que a sua história parecia mentira. Estava lá porque tinha tido um cancro da mama. Removeu um peito todo, fez quimioterapia e radioterapia no IPO e como tal foi obrigada a cortar todo o cabelo. Nessa altura comprou uma peruca de cabelo natural e usou-a, mas fazia-lhe alergia por causa do calor do verão. Ninguém do seu trabalho se deu conta da sua doença e quando o seu cabelo começou a crescer um pouco e decidiu deixar de usar a peruca, as suas colegas de trabalho andavam a dizer tipo coscuvilhice que ela era uma parva por ter com cabelo tão bonito e por o ter cortado tão rente...Esta assim como outras senhoras estavam a pensar na reconstrução mas...
A Senhora A deu-se conta depois de conversar-mos um pouco que conhecia a Senhora D pois haviam estado na mesma altura no IPO.
Senhora E- Não falou comigo, nem com ninguém, mas estava tão debilitada. Era com certeza mais nova que a minha mãe, mas o seu sofrimento ultrapassava aparentemente muito mais que o de algumas pessoas de 80. Não tinha cabelo e estava muito coberta, queixava-se do frio e preferia estar em pé que sentada...
Senhora F- Eu digo senhora, mas era mais uma menina, pois não devia ser muito mais velha que eu, reparei nela porque era extremamente bonita e bem arranjada, no entanto não tinha cabelo...
Senhora G- Senhora dos seu 60 e tal anos que se sentou nas cadeira de lá de fora e pôs-se a chorar (uma pessoa fica mesmo sem jeito, sem saber o que fazer), mas a Senhora C la lhe perguntou se precisava de alguma coisa e ela respondeu que não, que só teve que vir cá fora porque ia desmaiar...
Senhora H- Era amiga da Senhora G, esta senhora também com uma idade avançada já tinha tido também um cancro da mama e removido um peito e na altura em que havia tido o problema, uma cunhada sua havia tido o mesmo problema e havia morrido dele...quanto a Senhora G, ela apenas estava a acompanha a Senhora H e toda envolvente afectou-a.
Senhor B- Este Senhor tinha acompanhado a mulher em todo o processo de cancro e quando soube da noticia pelo médico ia desmaiando, pois o médico foi muito insensível e frontal e disse-lhes logo que era preferível remover o peito todo antes que o cancro se alastra-se. Assim o fizeram e o deram 800 contos pela operação, no entanto o Senhor disse que até dava 1600, pois foi muito bem feita e correu tudo bem. Quando este senhor contou aos familiares, estes responderam: " 800 contos para isto? ", mas apesar do choque da maldade dos familiares ele não se importou pois tinha a mulher a seu lado e sem danos. Mas este Senhor conhecia um outro, cuja filha tinha tido o mesmo problema,mas não a mesma sorte, pois ao removerem o peito cortaram os ligamentos ao braço e este ficou sem força, como que um membro morto...
Talvez estas histórias não emocionem muitas pessoas( até porque, e para começar, a minha descrição não é nada justa em relação a gravidade dos acontecimentos), mas ter ali aquelas pessoas que estavam ali com a maior das naturalidades, à minha beira a contar, em estilo de conversa ( e não estilo heroi, que é o que são) o que viveram fez-me pensar que estes problemas estão tão mais perto de nós do que nós imaginamos...eu sei que existe este problema, todos nós sabemos, mas estar ali e associar o problema aquelas pessoas (que para mais eram tão simpáticas) foi como se o cancro da mama batesse a minha porta e me disse-se: "Eu existo"...
Fui chamada para a consulta, e todo me desejaram boa sorte como se de um veredicto se tratasse. A médica era a coisa mais mal encarada que eu alguma vez vi(ou assim me pareceu devido ao que havia ouvido). Fiz uma biopsia, que até não custou nada (e a minha mãe a sofrer por mim, pois a biopsia dela foi bem dolorosa e temia por mim) e mandou-me embora, para voltar la para ver o resultado no próximo mês.
Saí e ainda estava lá todas as pessoas maravilhosas que conheci e que, sem se darem conta, mudaram um pouco de mim. Perguntaram logo como tinha corrido e eu disse que só tinha feito a biopsia. Assim como já tinham feito antes com outras pessoas, despediram-se se mim com um adeus normal e desejaram-me as melhoras (apesar de, e espero bem que sim, eu estar com a noção de que não vou ter nada)...
Para estes e todos os corajosos que nos passam ao lado no dia a dia e que já passaram por tanto, como estas pessoas, um abraço muito forte (para dar força)...e que a vida vos reserve tudo de bom (pelo menos de agora em diante) , que continuem pessoas de muito bom coração (pois pareceu-me que quem passa por estas coisas, pelo menos neste caso foi, é mais humano ou pelo menos tem os olhos mais abertos a bondade) e que a saúde não vos pregue mais partidas...
...a aproveitem a vida, pois ela passa que nem um suspiro... um grande carpediem para todos





